VELLKER: OS MISSIONÁRIOS
Começou o horário eleitoral, que tem sido uma coisa boa para assistir. O leitor pode ser arredio a essa idéia, mas se pensar bem verá que há razões para ser assíduo espectador desse programa, uma das melhores misturas de humor e drama já criadas na televisão brasileira, apesar de que o resultado foi involuntário por parte dos criadores e voluntaríssimo por parte dos atores, que se apresentam como candidatos, na falta de piada melhor ou drama mais pungente. O drama fica por conta da constatação da profundeza política a que chegamos, com candidatos absurdamente desprovidos de qualquer traço de vida própria, reflexão ou maturidade, fora as honrosas exceções que as pessoas conhecem em suas cidades, onde terão com certeza visto a atuação correta de alguns candidatos.
O restante, apresenta-se da forma de sempre: rostos plastificados, sem exibir qualquer emoção, entoando como se fossem papagaios o trinômio “saúde, educação e trabalho“, falando novamente na “luta em prol da cidadania“, recitando mais uma vez a frase “meu compromisso é com você” e promessas de felicidade e fartura para todos pelos próximos 4 anos.
Alguns candidatos, arriscando uma vaga na câmara de vereadores ou os mais ousados como prefeito, com a chave dos cofres públicos na mão, aparecem visivelmente aborrecidos e tensos tendo que se apresentar aos eleitores, assim como uma bandido que tivesse que fazer o mesmo para prometer o melhor assalto, na frente a uma fila de correntistas dentro de uma agência bancária.
Fazem a leitura dos textos que são projetados na tela acima da câmera que os filma, de modo mecânico, alguns conseguindo nem mostrar emoção, com o rosto plastificado e em todos os olhos se movem para os lados para ler o texto que nem mesmo vem de suas convicções e sim de algum escritor-fantasma do partido sob o qual se apresentam, que conhecedor antigo das patifarias políticas que se candidatam, sabe escrever o texto que será mais adequado às nulidades morais e políticas que o partido escolheu.
Na tentativa de fazerem os eleitores memorizar seus nomes, já que a apresentação é inexpressiva, usam os nomes de sempre, que variam pelas cidades do Brasil afora, como Zé do Bar, Maria do Salão, João da Serra e Marcão do Guincho. Por aí se vê a que pátio será guinchada a saudável pretensão dos eleitores por uma vida melhor.
Outros, exagerando na apresentação histriônica, dão berros e se apresentam munidos de vassouras, aspiradores ou espanadores, prometendo limpar e tirar a poeira da política local, enquanto dão pulos, berros e gritam seu nome e número no segundo final da apresentação. Outros que decidiram concorrer por partidos nanicos, nos poucos segundos que tem para falar, terminam com seus gritos cortados no meio.
Por esses desempenhos de artistas, que seriam mais adequados para programas humorísticos como “Zorra Total” ou “Os Trapalhões” é que o leitor deve começar a ver o programa eleitoral. Descobrirá surpreso que, afinal, tem um bom programa à sua disposição e com certeza gravará cópias deles para mostrar a seus filhos e netos, para que saibam a que ponto, ou melhor, a que profundidade desceu a política brasileira um dia.



